A sustentabilidade corporativa consolidou-se como parte central do discurso empresarial global. Relatórios ESG, compromissos públicos e metas de longo prazo tornaram-se praticamente obrigatórios para grandes companhias. No entanto, quando analisamos dados independentes e comparáveis, surge uma realidade menos confortável: há uma distância significativa entre o que as empresas dizem e o que efetivamente fazem.
Essa constatação é sustentada pelos estudos do World Benchmarking Alliance (WBA), organização internacional independente que avalia o desempenho socioambiental de empresas consideradas essenciais para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Em seu Benchmark 2026, o WBA analisou aproximadamente 2.000 das maiores empresas do mundo, responsáveis por uma parcela substancial da economia global e dos impactos ambientais e sociais associados a ela (World Benchmarking Alliance, 2026). Os resultados são claros. Embora a maioria dessas empresas possua políticas públicas de sustentabilidade, direitos humanos ou clima, a implementação prática dessas políticas ainda é limitada. Segundo o WBA, menos de 5% das empresas avaliadas garantem um salário digno aos seus trabalhadores, considerando o custo real de vida e as necessidades básicas das famílias. No campo dos direitos humanos, menos de 10% realizam avaliações adequadas de riscos em suas cadeias de valor, um dado particularmente preocupante em setores intensivos em mão de obra e com cadeias globais complexas.
Quando o foco se volta para a natureza, a lacuna permanece. Apenas cerca de 20% das empresas monitoram de forma consistente os impactos ambientais de seus produtos e operações, incluindo desmatamento, uso de água e perda de biodiversidade. No debate climático, embora muitas corporações tenham anunciado compromissos de neutralidade de carbono, o WBA aponta que uma parcela significativa dessas metas não está alinhada com trajetórias cientificamente compatíveis com o limite de 1,5 °C, conforme recomendado pelo IPCC.
Esses dados expõem um padrão recorrente: o avanço mais rápido ocorreu no nível do discurso, não da transformação operacional. Parte dessa desconexão pode ser explicada pela própria estrutura dos relatórios corporativos, que ainda privilegiam narrativas positivas e carecem de métricas padronizadas, verificáveis e comparáveis. O benchmarking do WBA surge justamente para preencher essa lacuna, oferecendo uma avaliação externa que vai além da autodeclaração empresarial. Outro fator relevante é a complexidade das cadeias globais de valor. Muitas empresas concentram seus compromissos nas operações diretas, enquanto os impactos mais severos — trabalho precário, degradação ambiental e violações de direitos — ocorrem em fornecedores e parceiros indiretos. O WBA destaca que poucas companhias assumem responsabilidade efetiva por esses elos, apesar de se beneficiarem economicamente deles.
Há ainda um aspecto estrutural importante: os incentivos internos. O próprio WBA observa que empresas com melhor desempenho em sustentabilidade tendem a vincular metas ESG à remuneração de executivos e à tomada de decisão estratégica. Onde essa conexão não existe, a sustentabilidade permanece periférica, sujeita a cortes e adiamentos diante de pressões financeiras de curto prazo.
Apesar desse cenário, o diagnóstico não deve ser lido com pessimismo. A transparência trazida por iniciativas como esse estudo cria um ambiente de maior responsabilização. Investidores, consumidores, reguladores e a sociedade civil passam a ter dados concretos para diferenciar compromissos genuínos de discursos vazios. Além disso, o próprio histórico do WBA mostra que empresas expostas ao benchmarking tendem a melhorar seu desempenho ao longo do tempo, especialmente quando percebem impactos reputacionais e financeiros associados à inação.
A principal mensagem que emerge dos dados é direta: sustentabilidade não pode mais ser tratada como narrativa. Ela exige governança, métricas claras, metas intermediárias e decisões difíceis. Fechar a distância entre discurso e prática não é apenas uma questão ética, mas estratégica. Em um mundo cada vez mais atento à coerência entre fala e ação, empresas que não evoluírem correm o risco de perder legitimidade, competitividade e, no limite, sua licença social para operar.
